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Instrumentos

Um pouco de história

Todos os Povos possuem os seus próprios instrumentos, que diferem de cultura para cultura. Os de origem erudita são o resultado da evolução de variantes populares. Entre os instrumentos de cordas, usam-se vários tipos de harpas e liras, assim como dulcimeres ou címbalos, que foram usados na Europa Central. Variantes destes são as cítaras de trastes Austríacas e os Kenteley dos Países Nórdicos. Na Grécia e no Egeu dá-se o nome de lira a uma espécie de violino pequeno. Por vezes, os instrumentos eruditos são adoptados pela música popular e voltam a sofrer alterações. Entre os instrumentos de sopro existe uma grande variedade consoante os países: flautas duplas, charamelas pastoris, flabiois, etc. A associação de pífaros e tambores é muito comum em alguns mundos rurais. Existem diversos tipos de gaitas-de-foles, como a escocesa, a galega, a portuguesa, entre outras. As dulcinas têm também várias versões. Conforme as suas dimensões, o instrumento de palheta dupla tem o nome de charamela, gralla (na Catalunha), etc.

Na Ilha da Madeira, subsistem sempre as trovas, bem características, cantadas pelo Povo com acompanhamento da viola de arame, do rajão, do braguinha, da rabeca, da harmónica, de pandeiros, pandeiretas, bombo, outros instrumentos de percussão e mais recentemente do acordeão.

E quando se trata de música tradicional, a memória do povo aviva-se e, num querer voltar às origens, apura-se a sensibilidade para a investigação, para a recolha, para a preservação de relíquias instrumentais e vocais, visando a sua posterior divulgação. A estes factores, enraizados na tradição/popular, é adequado o tom maior, indo ao encontro/busca da riqueza patrimonial, que são os nossos tocares e cantares, companheiros ímpares de folguedos e festas da nossa terra, na demonstração cabal de que a música tradicional/popular, quando bem interpretada, é a alegria do povo.

 

 

INSTRUMENTOS DE CORDAS MAIS USUAIS NA ILHA DA MADEIRA

É vulgar chamar-se aos instrumentos de cordas: o rajão, o braguinha e a viola de arame, como sendo oriundos da Madeira. No entanto e conforme Carlos dos Santos, digníssimo folclorista e musicólogo nos dizia no seu livro Tocares e Cantares, editado em 1938, sobre o estudo do Folclore da Madeira: «a inexistência de elementos torna por si só difícil aferir de tal verdade». Qual daqueles instrumentos terá sido o primeiro a inventar? Claro que é uma questão complexa. Platão de VaKcel escritor russo residente no arquipélago da Madeira, escrevendo em 1869 acerca de músicos madeirenses, referia-se a violas, rajões e machetes(em certas zonas rurais o braguinha é conhecido por machete) de modo algum enumerando qual o de primeiro aparecimento.


O RAJÃO

Julgamos que, depois de tudo o que lemos e investigamos, é, realmente, o rajão o instrumento de cordas por excelência da R.A.M.
Sem dúvida, o instrumento mais popular do folclore madeirense, indispensável companheiro dos folguedos e brincos que acontecem por toda a região ocupando, por isso, uma posição relevante entre os instrumentos de cordas ditos por tradicionais do arquipélago da Madeira.
O rajão é, indubitavelmente, um instrumento tipicamente madeirense, embora existam documentos que falam de um «Machinho» de cinco cordas no século XVIII, em Guimarães.
A sua importância sócio-musical tem muito mais influência nas zonas rurais, principalmente pela sua facilidade em acompanhar em qualquer ritmo.
É também um instrumento com grande versatilidade, muito fácil de ser tocado em qualquer tom, seja ele maior ou menor e não como erradamente algumas pessoas noutros tempos lhe atribuíam a condição de só ser capaz de ser tocado em tons maiores.
Há quem defenda que deriva da viola francesa (guitarra acústica, violão, guitarra espânica e mais vulgarmente viola) e talvez tenham razão, visto a semelhança ser muito evidente, seja no formato, bem como na execução dos acordes.
Este tipo de instrumento, em tempos idos, foi levado por madeirenses para o Hawai, onde lhe deram o nome de ukulele.
Em Agosto de 1998, estiveram na Madeira três músicos, tocadores do ukulele, com quem tivemos o ensejo de tocar alguns temas, no Café do Teatro Municipal, mais precisamente no dia 22. Posteriormente, os mesmos estiveram na Camacha, sede do grupo «Encontros da Eira», em convívio com elementos executantes deste grupo.
Naquela zona do globo, sofreu algumas adaptações, sendo encordoado com quatro cordas, e apesar de existirem alguns com tamanho inferior ao do nosso rajão, existem também muitos outros do mesmo modelo e dimensões. Existem algumas divergências de opinião acerca da sua descendência: se do rajão ou do braguinha; no entanto, chamo atenção para o facto da sua afinação ser igual à do rajão e não à do braguinha.
Para além do mais, foram construídas grandes quantidades e exportadas para a África, por volta do ano 1897.


Sua afinação e encordoamento:

O rajão tem cinco cordas, dispostas da forma seguinte (de baixo para cima e/ou do agudo para o grave):

 

1ª Lá (carrinho - Nº-10)
2ª Mi (carrinho - Nº- 4)
3ª Dó (bordão - Nº- 41 - si da guitarra portuguesa)
4ª Sol (toeira * carrinho - Nº-9)
5ª Ré (bordão - Nº- 41 - si da guitarra portuguesa)

* Toeira é a corda que dá o tom da afinação de qualquer instrumento. É de realçar que o rajão tem uma curiosa disposição no seu encordoamento, sendo a terceira corda um bordão, produzindo uma sonoridade sui generis.
Na sua forma original, tem 17 trastes, 66 cm de comprimento total, 32 no comprimento da caixa harmónica e 21cm e no espaço mais largo da sua caixa harmónica.
O exímio tocador de cordofones tradicionais da Madeira, tem uma particularidade ímpar na sua forma de execução, sendo que o vulgar «tocar de rasgado» faz-se com o emprego dos dedos anelar, médio e indicador, passando sobre todo o seu encordoamento, num movimento com o punho no sentido de cima para baixo, alternando com outro movimento do polegar de baixo para cima, sendo que o esquema pode ser inverso.

«O rajão é um instrumento acompanhador por excelência !?.» (dito popular)

Sempre foi hábito tomar a utilização desta frase como verdadeira. Ainda noutros tempos, muitas pessoas, erradamente, defenderam a tese de que este instrumento só era tocado em tons maiores, e unicamente em acompanhamento. No entanto, com o surgimento de grupos de música tradicional, como o Encontros da Eira, e/ou outros e ainda alguns (muito poucos) grupos folclóricos, os músicos seus componentes exploram o rajão de uma forma mais consentânea com as características e capacidades que este tipo de cordofone pode oferecer, vendo-se que ele é também um óptimo instrumento de solo (ou ponteado, como vulgarmente diz o nosso o homem do campo), sendo tocado ainda em tons menores.

 

 

O BRAGUINHA

O braguinha, cordofone cantante da música tradicional da Madeira é, segundo dizem alguns entendidos na matéria, de todos instrumentos tradicionais da Região Autónoma da Madeira o mais controverso.
Enquanto alguns dizem ser originário de Braga (cidade), o autor do Elucidário Madeirense afirma que o seu nome advém dos antigos trajes, denominados bragas que, outrora, eram usados pelos camponeses do sexo masculino do arquipélago Madeira.
O seu som saltitante e alegre destingue-se dos demais instrumentos de cordas tradicionais/ populares da Madeira e Porto Santo.
Instrumento de solo, (cantante ou ponteado, como vulgarmente é denominado pelo nosso povo) alegre e gracioso foi, em outros tempos, de grande estima das damas e donzelas madeirenses.
O braguinha tem no cavaquinho o seu homónimo, sendo este instrumento muito popular em terras açoreanas e continente português.
Diferencia-se daquele pelo facto da sua escala ser sobreposta à caixa de ressonância e não rasa como esse seu homónimo.
Em certas zonas rurais da R.A.M., dão-lhe ainda o nome de braga, machete, machetinho ou machete de braga.
Este instrumento tem 17 trastes, 51 cm de comprimento total, 23 de comprimento de caixa harmónica e 15 na sua maior largura.

Sua afinação e encordoamento:

O braguinha arma (encordoa) com 4 cordas, distribuídas conforme quadro anexo (de baixo para cima e/ou do agudo para o grave):
 

1ª Ré (carrinho - Nº- 9)
2ª Si (carrinho - Nº-10)
3ª Sol (toeira * carrinho - Nº- 4)
4ª Ré (bordão - corda si da guitarra de fado nº-41)

 

 

A VIOLA DE ARAME

A viola de arame é um cordofone descendente das violas portuguesas (viola beiroa, viola campaniça, viola braguesa, viola amarantina, viola toeira).
Tem, no entanto, nas suas irmãs Açoreanas (viola da terra - 12 cordas, ilha de São Miguel; viola da terceira - 15 cordas, ilha da Terceira e Viola da Terceira -18 cordas, popularizada na mesma Ilha daquela Região Autónoma) as suas parentes mais próximas, sendo todas estas conhecidas por violas de arame.
Diferencia-se, porém, das demais, por ter escala sobreposta ao tampo e não rasa como aquelas.
O seu nome adevem do facto de, na sua armação (encordoamento), as cordas serem construídas de arame, (vulgarmente fios de latão).
Esta viola era, outrora, muito usada pelos foliões populares em festas e folguedos, no acompanhamento do charamba (cantiga de raiz popular da Madeira e Porto Santo). No entanto, e com o andar dos tempos, os tocadores mais experimentados e com gosto pela exploração completa deste cordofone de som maravilhoso e harmónico, conclui-se que presta-se também para acompanhar outros tipos de cantigas tão populares quanto vulgares na Região Autónoma da Madeira.
A forma de tocar este instrumento é a mesma utilizada para tocar o rajão e o braguinha, podendo ser tocada de ponteado ou em acompanhamento, ficando tal tarefa ao sabor da intuição e/ou da função do tocador.
Tem, na sua constituição, 14 trastes, 87 cm no total do comprimento, 42,5 cm no comprimento da caixa harmónica e 27 na largura máxima dessa caixa.

 

Sua afinação e encordoamento:

A viola de arame encorda com 9 cordas (de baixo para cima e/ou do agudo para o grave), conforme abaixo enumerdo:

1ª Ré (carrinho - Nº-10 ou 9 - um par de cordas afinadas em uníssono).
2ª Si (carrinho - Nº-4 corda de aço - individual).
3ª Sol (toeira * carrinho - Nº-4 - um par de cordas de latão afinadas em uníssono).
4ª Ré (um par de cordas, sendo a primeira um bordão - corda si da guitarra de fado nº-41 e a segunda um corda de aço fino carrinho nº-10).
5ª Sol (um par de cordas sendo a primeira um bordão nº-73 ou sol da viola francesa e a segunda uma corda de latão nº-4).

 

Sua construção/estrutura:

O rajão, o braguinha e a viola de arame, são constituídos por:

Estrutura interior: onde se salienta: o bloco superior, o bloco inferior, e as travessas (que na viola de arame é também conhecida por leque)

Caixa acústica: constituída pelo tampo superior harmónico, tampo inferior harmónico, ilhargas e cinta.

Braço: construído em madeira dura, é onde assenta a escala que, por sua, vez é construída em madeira branda e laça, tendo também na extremidade superior assente as chaves de afinação ou cravelhas.

Escala: que tem incluso os trastes.

Cavalete: esta parte do instrumento está presa ao tampo superior harmónico e é o local onde se prendem as cordas.

Estas informações foram prestadas no decorrer de uma visita de estudo realizada à oficina do construtor de instrumentos (arte fina) de Carlos Jorge Rodrigues, à rua dos Frias N.º- 2 A, 9000 - Funchal, no dia 14 de Maio, de 1998.

E quais as madeiras mais usadas na construção dos instrumentos tradicionais de cordas da R. A. M?

As madeiras mais utilizadas na construção dos cordofones de origem madeirense, variam muito segundo o preço que a pessoa quer gastar com a compra destes.
No entanto, e segundo informações colhidas com um grupo de formandos de um curso de Guias de Montanha, realizado no ano de 1998, na Ribeira Brava, junto de um construtor de instrumentos, em visita de estudo realizada à sua oficina, o mesmo informou que as mais vulgares e usadas por ele, são as que se seguem, independentemente do instrumento a construir.

No tampo superior harmónico: pinho branco (ou spruce) e pinho de flandres, por serem madeiras brandas e com grande capacidade de propagação do som harmónico.

No tampo inferior harmónico: cedro, mogno, pau santo, til, vinhático, nogueira, plátano e/ou outras.

Nas ilhargas da caixa sonora: poderão ser usadas as mesmas que estão enumeradas para a construção do tampo inferior harmónico.

No braço: na construção do braço usa-se, por norma, uma madeira branda.

As mais usuais são: mogno, tola, castanho, cedro, nogueira.

Na escala: é na escala que são executados os acordes ou ponteados, feitos normalmente com a mão esquerda que, por sua, vez coordenada com a direita, dá a melodia ou som da música a interpretar. Como tal é visto haver uma forte pressão entre os dedos da mão, pisando as cordas, contra a madeira da escala, a mesma deverá ser sempre construída numa madeira branda e laça (utiliza-se muito o til preto), de modo a que a mesma não fique com irregularidades provocadas pela execução dos ponteados e acordes.

Nos embutidos: os embutidos, que por vezes têm alguns instrumentos, não lhe alteram as características ao nível do som, servindo de protecção ao tampo superior harmónico e também de embelezamento dos mesmos, encarecendo-os, sem dúvida, visto ser necessária muita mão - de obra para a execução dos mesmos. O til, o perado e o buxo, são as madeiras mais utilizadas.

No cavalete: o cavalete deverá ser construído com mesmo tipo e cor de madeira utilizada na escala: madeira muito rija, visto o mesmo ter de suportar a grande parte da afinação do instrumento. Na sua parte superior, assenta a pestana que, por sua vez, é constituída em osso, por onde passam as cordas, depois de serem afixadas, nos suportes.

 

 

A RABECA

Este instrumento de cordas é a versão tida por popular na Madeira do clássico violino.
É um instrumento de cordas que faz parte das orquestras dos grupos de folclore e dos de música tradicional desta Região Autónoma.

 

 

O BEXIGONCELO

No seu todo, é constituído por um pau (vara) ao qual é sobreposto, numa das extremidades, uma bexiga de porco, sendo a corda única feita de tripa (na maior parte das vezes de gato).
Este instrumento de construção artesanal, muito característico em Santana, quando tocado, transmite um som muito grave, tipo baixo acústico.
Felizmente, já tivemos oportunidade de ver um homem rural, mais precisamente de Santana, a tocar este tipo de instrumento e, se não estamos em erro, o Grupo Folclórico daquela zona rural utiliza-o nas suas apresentações públicas.
É, no entanto, um instrumento que caiu no desuso.

 

INSTRUMENTOS DE PERCUSSÃO:

Estes instrumentos são de grande utilidade na música folclórica e tradicional/popular da Região Autónoma da Madeira sendo que, no entanto, nenhum deles poderá ser considerado de origem madeirense havendo, no entanto, algumas adaptações dos originais vindos de outras paragens.
Diz-se que rara é a romaria ou folguedo onde não estejam presentes alguns destes instrumentos.
Este tipo de instrumento tem utilização em festas profanas ou religiosas, servindo de acompanhamento aos cordofones atrás descritos.

OS FERRINHOS

É constituído por um varão cilíndrico de aço dobrado em triângulo, com as quinas quebradas e uma abertura num dos vértices de modo a que o som seja mais vibrato quando tocado. Segurado por um cordel, preso a um dos vértices e percutido com uma vareta de metal, propaga um som agudo. A sua introdução neste tipo de grupos dá-se a partir do século XVIII. É muito usado pelo povo e grupos folclóricos e de música tradicional/popular, sendo quase sempre tocado do princípio ao fim na parte instrumental das nossas cantigas. Os grupos de música tradicional, que se vêm formando desde 1980 a esta parte, utilizam-nos só em determinadas partes das cantigas, vendo-se que os elementos tocadores destes instrumentos têm uma percepção musical mais apurada.

PANDEIROS E PANDEIRETAS

Os pandeiros e as pandeiretas são instrumentos redondos, com os aros de madeira, ou plástico, através dos quais é aberto um pequeno rasgo, por onde saem as soalhas (pequenas chapas redondas, tipo cápsula de garrafa, rebatida), existindo uns com uma e outros com duas filas das ditas soalhas No seu diâmetro é, por vezes, revestido com uma pele que poderá ser de animal ou sintética, utilizada para percutir, normalmente com a mão, e outras vezes, com maçaneta ou baqueta. Os pandeiros diferenciam-se das pandeiretas por serem de tamanho maior, apesar de na sua forma de tocar não haver grandes diferenças. Noutros tempos, dizia-se ser instrumento usado, maioritariamente, pelas pessoas do sexo feminino mas, com o andar dos tempos, essa característica foi-se perdendo e, actualmente, é tocado por novos, velhos, homens ou mulheres.

O BRINQUINHO

É um instrumento de percussão muito vulgar e popular na Região Autónoma da Madeira e um dos mais queridos, senão o mais querido do povo e dos turistas que nos visitam. Este conjunto de sete bonecos de pano tem, no seu interior, na maior parte dos casos, serradura e são revestidos com trajes típicos do nosso arquipélago, portadores de castanholas, situadas vulgarmente nas costas dos bonecos, dispostos em roda de dois arcos circulares, construídos em arame grosso. Toda esta engrenagem assenta numa cana vieira, possuindo na parte inferior um cabo em madeira (onde o tocador pega, normalmente, com a mão direita), preso a uma verga de arame centralizado no interior da mesma que, por sua vez, é ligado aos arcos circulares, acima descritos, ficando a mão esquerda fixa na cana que suporta todo o este esquema. Toca-se num movimento de acima e abaixo, de modo a ser possível percutir as castanholas. O brinquinho (em algumas zonas também chamado de bailinho), não teve a sua origem nesta ilha, dizendo-se que talvez seja de origem minhota, onde é conhecido por zuca-truca. Há quem defenda também ser de origem africana, o que não nos parece muito impossível, visto que, ao cumprir serviço militar em Luanda, capital de Angola ex-colónia Portuguesa, tivemos a possibilidade de observar alguns instrumentos afins, com as castanholas construídas com formas de cabeças de animais. O brinco era o termo vulgarmente usado para definir outrora, um conjunto de romeiros a tocar e a cantar a caminho e nos arraiais, muito característicos na nossa ilha. É um marcador de ritmo, por excelência, na maioria dos grupos folclóricos existentes nesta ilha. Apesar de não ser de origem madeirense é, no entanto, um dos souvenirs mais apreciados e adquiridos como ex-libris do folclore desta ilha.

AS CASTANHOLAS

Este tipo de instrumento, de origem espanhola, sofreu uma aceitação madeirense bastante acentuada. Quando introduzido nesta região, foi sendo adaptado conforme o gosto do seu tocador, visto ser de fácil construção artesanal, atingindo dimensões e configurações das mais exóticas e variadas, indo da imitação de animais até à de aviões. Nos finais da década setenta, tivemos a oportunidade de presenciar, um grupo de idosos da freguesia da Tabua, tocando castanholas gigantes (com tamanho superior à mão de um adulto), onde cada componente percutia uma castanhola, fazendo no seu todo uma orquestra de castanholas. Isto foi possível observar numa exposição de instrumentos, realizada pela oficina de construção e reparação de instrumentos do Conservatório da Madeira, na Ribeira Brava. Nunca mais tivemos oportunidade de presenciar espectáculo igual. As castanholas são um tipo de instrumento muito utilizado no acompanhamento dos despiques (tipo de brinco muito popular nas festas e folguedos desta pérola do Atlântico).

RECO RECO OU RASPADEIRA

O reco-reco ou raspadeira é também um dos instrumentos de percussão mais utilizados nos grupos de música tradicional, sendo que os de folclore só o utilizam raramente. Este instrumento é constituído por duas canas-vieira, uma maior e mais grossa, que pode oscilar entre os 50 e 70 cm de comprimento e onde são abertos uns rasgos, e outra mais fina e pequena, que serve para arrastar ou friccionar sobre os rasgos existentes na mais grossa, dando-lhe o ritmo adequado da cantiga a interpretar.

AS PINHAS

Este tipo de instrumento, muito popularizado pelas gentes rurais, crê-se, como alguns dos anteriores, que não teve a sua origem na Madeira. É, no entanto, muitíssimo utilizado e tocado da mesma forma que o rec-rec: as pinhas têm de ser colocadas uma em sentido contrário à outra, para que as mesmas possam raspar livremente sem se prenderem e emitirem livremente o som.

O GRILINHO

Este instrumento de percussão, não sendo, contudo, muito usado, é de grande importância, principalmente nas orquestras dos grupos de música tradicional.

O BOMBO

O bombo desempenha papel fundamental na marcação das cantigas, quer sejam interpretadas pelos grupos de folclore ou de música tradicional e até como acompanhamento dos brincos e romarias, nos grandes arraiais da região.

 

 

OUTROS INSTRUMENTOS:

O PAU DE CHUVA

O pau-de-chuva é também um instrumento com utilização regular nos grupos de música tradicional. Não temos, todavia, conhecimento que exista algum grupo de folclore a utilizá-lo. Conforme a maioria dos instrumentos atrás descritos, não é originário do nosso Arquipélago.

FLAUTA TRANSVERSAL

A flauta transversal, não sendo originária da Madeira, é utilizada com alguma frequência pelos grupos de folclore e também pelos de música tradicional/popular.

FLAUTA DE BISEL

Este tipo de flauta, muito característico das orquestras de grupos populares, teve grande utilização noutros tempos. Actualmente, assiste-se a um regressar às origens no que respeita a este instrumento, vendo-se muitos grupos, crianças e jovens a tocá-lo regularmente.

 

 

OS NOVOS INSTRUMENTOS DE CORDA

Esta versão do projecto dos Encontros da Eira inclui novos instrumentos de corda a partir da tradição musical Madeirense.

 

BRAGUINHA COM CORDAS DUPLAS DE NYLON


Braguinha de cordas duplas

O Braguinha com cordas duplas de nylon traz uma mais valia ao grupo nos solos instrumentais, possibilitando um chorus natural em uníssono, bem como um rasgado em acordes homogéneos e quentes.

 

O RAJÃO E A VIOLA MADEIRENSE


Viola Madeirense


O novo conceito sonoro inclui também o Rajão e a Viola Madeirense com cordas de nylon.

Devemos salientar que o uso de cordas de tripa (o nylon é o material que mais se aproxima) era comum na Madeira, sendo um dos exemplos o bem conhecido Aldolfo de Freitas do Grupo Folclórico da Camacha, que o utilizou durante várois anos, nomeadamente no Rajão.

Esta busca de sonoridades e latitudes ultrapassa o espectro imediato da nossa tradição e cultura, procurando algumas origens e influências demasiado importantes para serem esquecidas. A Ibéria, no sentido lato, e regiões como a Andaluzia e o Magreb são pontos de referência para muitas das nossas mais antigas melodias, ritmos e géneros musicais. Estamos com certeza a falar do Charamba, da Mourisca, do Baile da Meia Volta da Ilha de Porto Santo, das Cantigas de Trabalho e Jogos de Roda, Histórias e Romances, entre outros.


O conjunto dos três cordofones madeirenses encordoados a nylon, construídos de raiz pelo violeiro madeirense Carlos Jorge Rodrigues, vem incentivar também os executantes dos Encontros da Eira na criação ou adaptação de peças instrumentais de salão.


A exploração desta vertente, será a continuação de uma prática muito em voga no séc. XIX, na casa das famílias mais abastadas como também nas associações musicais e recreativas, um pouco por toda a ilha, nomeadamente a freguesia da Camacha onde existiam alguns agrupamentos de música de salão.

Vítor Sardinha

Webmaster - Pedro Tavares * Textos Jorge de Sousa e Vitor Sardinha